Mr. Supa Cool

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Calmamente, Mr. Supa Cool ia passando pelos carros, atascados no trânsito pára-arranca do final da tarde.

Um cigarro na mão direita, uma mini na esquerda… e os headphones na cabeça.

Não imagino o que ia a ouvir, mas vieram-me à cabeça várias músicas que davam um bom fundo musical para a cena…

Liberdade, capacetes, cintos-de-segurança e vacinas

Aqui há uns tempos, assisti de camarote a uma acesa polémica no facebook sobre o uso de capacete para ciclistas. Mais precisamente sobre a obrigatoriedade do uso do capacete. Assisti e participei…

Acontece então que há por aí uma teoria que diz que o uso do capacete não só não tem qualquer interesse como até deve ser desencorajado. Como tal, a obrigatoriedade não faz, evidentemente, qualquer sentido.
E, como para todas as teorias, os seus defensores têm estudos, muitos estudos, que provam a validade das suas afirmações.

A primeira questão levantada sobre a implementação da obrigatoriedade do uso é a da “Liberdade individual”. O argumento é: “O uso do capacete serve apenas para proteger a minha pessoa, logo, independentemente da validade do seu uso, devo ser eu que decido se devo usá-lo ou não”.

O uso do cinto-de-segurança nos automóveis e o capacete nas motos é obrigatório. Então como é que nestes casos isso não atenta contra a liberdade individual?
Podemos dizer que há estudos que provam que o cinto-de-segurança, efectivamente, salva vidas em caso de acidente, tal como os capacetes das motos, mas o mesmo não se prova taxativamente relativamente aos capacetes das bicicletas.

Mas o que é que isto tem a ver com a tal “Liberdade individual”? Nada. Não tem rigorosamente nada a ver, mas misturando argumentos mais válidos com argumentos menos válidos, faz com que, na aparência, se consiga validar estes últimos.

Na verdade, quem defende a não obrigatoriedade do uso do capacete em nome da “Liberdade individual”, deveria defender também a não obrigatoriedade do uso do capacete para moto (mesmo não andando de moto), a não obrigatoriedade do cinto-de-segurança (mesmo não andando de carro), a não obrigatoriedade das vacinas, etc., etc., por uma questão de princípio per se, e não tentando esgrimir com argumentos técnicos ou científicos.

Porque, independentemente dos argumentos técnicos que justificam as obrigatoriedades mencionadas, todos são debatíveis; para todos haverá um estudo a favor e outro a provar o contrário e, mais importante, todas essas medidas servem apenas para defender o indivíduo de perigos para os quais o indivíduo pode não querer ser defendido.

Se vou escalar uma montanha, posso optar por levar arnês e corda de segurança, mas também posso escolher fazer free-climbing, embora sabendo que qualquer falha da minha parte pode implicar uma queda mortal. E fazer isto (por acaso) não é proibido…

Porque intervém o Estado na decisão de proteger o indivíduo de si próprio? O Estado intervém porque existem variados custos sociais inerente aos acidentes a considerar. Os custos dos tratamentos hospitalares, as comparticipações nos medicamentos, os dias de baixa (associados às inerentes quebras de produtividade), as pensões por incapacidade, as pensões de viuvez, etc. Todos estes custos são suportados pela Segurança Social.

A mesma Segurança Social que está na penúria e não consegue financiar Hospitais dignos de um país pertencente à Comunidade Europeia…
Talvez seja oportuno lembrar os mais distraídos que o Estado e, por acréscimo, a Segurança Social, vivem dos Impostos pagos por todos nós, os Contribuintes.

Vamos supor, por hipótese, que estavam a referendo as obrigatoriedades do uso do cinto-de-segurança, do uso do capacete para motos e do plano de vacinas.

Quererei eu que os custos dos acidentados que por opção não usem cinto-de-segurança venham sobrecarregar os já de si pesados custos da Segurança Social? Não me parece.

Quererei eu pagar mais Impostos para que se possa andar de moto sem capacete? O capacete nem era obrigatório há uns anos… Acho que não.

Quererei eu que os custos de um surto de hepatite ou de tuberculose me venham tirar mais dinheiro do bolso porque há por aí quem defenda que as vacinas não devem ser obrigatórias? Seguramente, não!

É por esta razão que o Estado, em nome do superior interesse nacional e sobrepondo-se à “Liberdade Individual” encontra justificação para ditar certas obrigatoriedades.

E é pela mesmíssima razão que esse mesmo Estado tem o direito de eventualmente decidir pela obrigatoriedade do uso do capacete para ciclistas. E isso não tem necessariamente de chocar os defensores das “Livres escolhas”. Porque eu, Contribuinte, não quero vir a ter de pagar por essas escolhas.

Não resisto a relembrar um momento hilariante de uma argumentação num fórum do facebook em que uma defensora das “Liberdades Individuais” argumentava que “qualquer dia o Estado ainda nos vem dizer se temos ou não de usar preservativo…” ao que foi prontamente respondida por alguém que lhe disse que, caso a senhora vivesse nos Estados Unidos e resolvesse dedicar-se à indústria do cinema porno, teria de usar preservativo, pois o uso do mesmo está legislado neste caso. Caiu o Carmo e a Trindade…

Os argumentos pela não obrigatoriedade do uso do capacete não se esgotam na questão da Liberdade Individual. Há vários outros argumentos, “científicos”, que abordarei em seguida.

Capacetes e estudos, estudos e mais estudos

Sobre as vantagens e desvantagens de usar capacete quando se anda de bicicleta, existem variadíssimos estudos. Sobre as vantagens e desvantagens da obrigatoriedade de usar capacete, outros tantos.

Practicamente toda e qualquer afirmação feita nas redes sociais sobre este tema vem acompanhada de citações de estudos. Invocar que se use (apenas) o bom senso é meio caminho andado para se ser chamado de paternalista e levar uma saraivada de comentários sarcásticos, com mais ou menos piada, normalmente menos, que culminam com convites para abandonar a discussão ou o grupo.

Decididamente, ser a favor do uso do capacete, especialmente no contexto das “deslocações urbanas” está out. Quanto a argumentar a favor da obrigatoriedade do uso do mesmo, isso é quase tão mau como ser racista ou gostar de carne de cão.

É usual, apesar de tudo, haver muita gente a dizer que usa sempre capacete mas que é contra a obrigatoriedade do uso (a tal questão da “Liberdade de escolha”). Outros advogam o seu uso “apenas em ambiente desportivo”. E, claro, há os que são contra o uso do capacete em absoluto, pura e simplesmente.

Em relação à implementação da obrigatoriedade, temos sem dúvida a quase unanimidade dos comentadores a dizer que é contra. Segundo estes, só são a favor disso os amigos íntimos do Carlos Barbosa. A ver se me lembro de informá-lo disso quando tornarmos a jantar no Atlântico.

Todos os ciclistas comentadores do facebook são contra o uso obrigatório do capacete, não apenas pela questão da “Liberdade Individual” mas porque, a saber:

Argumento 1. A implementação da obrigatoriedade do uso reduz o número de ciclistas.

Esta conclusão vem da análise de dois factos. Um, o facto de que, na Austrália, quando tal medida foi implementada, houve um declínio do número de ciclistas. Ninguém apresenta hipóteses alternativas. Para quê?… Na verdade, em Portugal, na década de 50, toda a gente ia para o trabalho a pé, de transportes públicos ou… de bicicleta. Com a melhoria das condições salariais vieram, primeiro as motorizadas e, mais tarde, os automóveis. Com isto, baixou o número de ciclistas, sem que isso tivesse o que quer que fosse com o uso ou não uso do capacete. Não terá acontecido nada parecido na Austrália? Nunca o saberemos.

O outro facto óbvio é que usar capacete despenteia o ciclista. Como ninguém gosta de andar despenteado, “obviamente” que o número de ciclistas irá descer.

Curiosamente, a implementação do uso obrigatório do capacete não fez o número de motociclistas descer em país nenhum do Mundo… Isto devia dar que pensar, mas, pelos vistos, não dá.

Reduzindo o número de ciclistas, reduz-se a “Massa Crítica”. Havendo menos ciclistas, estes têm menos visibilidade e menos medidas de proteção, como a construção de ciclovias, ou a elaboração de legislação adequada são consideradas necessárias. Sendo que esta questão da “Massa Crítica” é bastante óbvia, e sendo que o capacete obrigatório afeta a mesma (lembram-se da Austrália?), fica “provado” o argumento.

Temos de “Copenhaguisar” as nossas cidades, a todo o custo! Ainda que esse custo signifique a morte de meia dúzia de ciclistas… O valor da “Massa Crítica” é inegável e fala mais alto! Se tens filhos, não deixes os miúdos saírem à rua com capacete!

Há ainda uma segunda questão (muito importante!) ligada à diminuição do número de ciclistas. Os ciclistas que abandonam a prática do ciclismo porque não querem andar despenteados tornam-se sedentários. Logo obesos. Este facto leva a um aumento exponencial dos casos de morte por ataque cardíaco.

Este número, segundo vários estudos, é largamente superior às mortes que o capacete poderia evitar, donde, devemos sempre desaconselhar o uso de capacete a parentes e amigos…

Argumento 2. A protecção oferecida pelo capacete é nula.

Quando vemos um capacete destruído após uma queda e o ciclista incólume, não devemos tirar conclusões precipitadas. Nada prova que, na ausência do capacete, o resultado da queda não seria o mesmo…

É óbvio que só repetindo o acidente com um ciclista com capacete e outro sem capacete, várias vezes, poderíamos tirar conclusões científicas! Infelizmente, não há meio de aparecerem voluntários para estas experiências….

Exemplos de acidentes não são, portanto, válidos. O bom senso também não é para aqui chamado. Nada de paternalismos! Apenas estudos e estatísticas, se fazem favor!

Aqui, normalmente, aparecem estudos que provam que os condutores de automóveis sofrem mais lesões cerebrais que uma trupe de pugilistas bêbados, e que por isso deviam ser os automobilistas a usar o capacete. Mas isto é dito a sério!…

A quantidade de acidentes que o capacete iria causar pela perda de visão lateral dos automobilistas não é considerada e o facto de que a segurança passiva no automóvel tem vindo a aumentar nas últimas décadas – cintos com pré-tensores, airbags laterais e carrocerias com painéis deformáveis para absorção do choque, etc. – também não parece interessar muito…

Outros afirmam que, se os ciclistas forem obrigados a usar capacete, então os peões também têm de usar! E isto também é dito a sério…

Argumento 3. O uso do capacete induz uma falsa sensação de segurança.

Esta sensação de segurança, leva os ciclistas a agirem de modo menos consciente, segundo estudos elaborados, julgo que pela Universidade de Ciência e Tecnologia de Pyongyang.

Já ando de bicicleta há uns anos. Quase cinquenta… Sempre que dei um tralho, aleijei-me, ora nas mãos, ou nos cotovelos ou nos joelhos. Até nos ombros e nas costas eu já me esfolei. Sei portanto, por experiência própria, que um tipo, quando cai, aleija-se e que, para além da cabeça, há muito sítio onde um tipo se pode aleijar. Aleijar e bastante!

Talvez por isso, no meu caso, com ou sem capacete, ando sempre com o mesmo cuidado… Ou isso ou então, quando levo capacete tenho comportamentos de alto risco (inconscientemente) e não dou por isso!
Deve ser esta última, de certeza… Os estudos não mentem!

Argumento 4. O uso do capacete leva a que os automobilistas façam mais razias ao ciclista.

Isto está também provado por um estudo de altíssima credibilidade. Foi feito por um inglês que se equipou com sensores e andou durante uns anos a medir e anotar a distância a que os carros passavam dele, umas vezes andando com capacete, outras sem.

Se os dados recolhidos se correlacionavam com o trajeto ser do trabalho a caminho do pub ou do pub para casa, nunca o saberemos. Mas o estudo é tido como uma referência credível.

Argumento 5. Se os Holandeses não usam, nem os Dinamarqueses (vai a Copenhaga, que logo vês), e ciclistas por lá são aos milhares, é porque não faz falta, pá! Evidente, não?

De vez em quando, lá aparece no facebook mais um vídeo com ciclistas em Copenhaga – são às carradas, no YouTube – com eles e elas a andar de bicicleta, às vezes de mão dada (ai, tão giro…) e até uns pais com os putos à pendura. Se aparece um tipo de capacete no meio de duzentos ciclistas já é muito!… Ora se isto não prova a inutilidade do capacete, então o que é preciso mais???

Por outro lado, quando vejo esses vídeos de Copenhaga que a malta publica, nunca vejo ninguém a fazer uma descida… Uma descidinha assim como a da Avenida da Liberdade em Lisboa, por exemplo, onde facilmente se dá 30 ou 40 Km/h!… Ora! Pormenores.

Argumento 6. A velocidade dos ciclistas é baixa…

“Ah e tal, em circuito urbano, as velocidades são moderadas, logo o capacete é irrelevante”… e “não se pode comparar a bicicleta com a moto”… A sério?

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Alguém que diga isso à senhora que foi atropelada no Seixal. A senhora ia na berma e bem devagar. Levou um toque que a mandou pelo ar e aterrou de cabeça, como se pode ver em vários vídeos no YouTube. Mas lá está, nada prova que o capacete serviria para alguma coisa… Não há estudo. Não há validação científica!

Acho engraçado haver quem se ache capaz de prever o desfecho dos acidentes, consoante o tipo de trânsito (urbano ou interurbano), o tipo de veículo envolvido (mota ou bicicleta) ou o tipo de condução (“contexto desportivo” ou ida para o trabalho). É um bocado como alguém saber dizer se um copo se vai partir ou não quando alguém o deixa cair…

Mas a verdade é que esses argumentos científicos aparecem sempre e a questão da velocidade é uma constante: pelos vistos, quem vai para o trabalho de bicicleta vai sempre “nas calmas”, ao contrário de quem esteja a treinar. Ninguém parece contar com a velocidade de um automóvel que possa colidir com um ciclista, ainda que num toque lateral. Dá-me ideia que cálculo vectorial não é matéria comum aos cursos dos doutores que comentam esta temática.

No entanto, devia ser fácil perceber que um tipo que leva um toque de um carro e vai parar com a cabeça ao para-brisas do mesmo ou ao lancil do passeio, vai dar por bem empregue cada Euro que deu pelo capacete… Devia ser fácil, mas, pelos vistos, não é!

Há, como se vê, razões e mais razões “científicas” e todas elas fundamentadas com “estudos”, muitos “estudos”, para que não se use o capacete. Que, para além do mais… despenteia!

Então…? Se está provada cientificamente a inutilidade do capacete… Como é que ainda há quem se atreva a ter ideias reaccionárias como seja a da implementação da obrigatoriedade do uso de uma coisa tão desnecessária como um capacete?

Além de todos estes estudos, toda a gente sabe que não é cool usar capacete, não sei se já percebeste… Um gajo com capacete é um totó! E as gajas não gostam de totós! Ainda não tinhas percebido? Dah…

Agora, se isto não é argumento suficiente para arrumares de vez a merda do capacete, já não sei o que te diga!

O estudo de Polícia de Nova Iorque

Do que raramente se fala nestes acesos debates é de um relatório elaborado entre 1996 e 2005 por um conjunto de entidades da cidade de New York, a saber: o New York City Departments of Health and Mental Hygiene, o NYC Dept. of Parks and Recreation, o NYC Dept. of Transportation e a NYC Police Department.

Neste estudo, bastante exaustivo, foram compilados dados de todos os acidentes envolvendo ciclistas em New York durante o período referido.

New York tem um estilo de condutores e um stress que são mais parecidos com Lisboa do que alguma vez Copenhaga será, mas isto é apenas uma opinião pessoal. Independentemente desta questão cultural ser válida ou não, os números recolhidos não são questionáveis.

Deste estudo que abrange dez anos de acidentes, refiro apenas os quatro pontos seguintes:

1. Entre 1996 e 2003, um total de 3.462 ciclistas ficaram seriamente feridos em colisões com veículos automóveis.

2. Entre 1996 e 2005, 225 ciclistas morreram em virtude de acidentes.

3. Practicamente todos os ciclistas que morreram (97%) não usavam capacete.

4. A maioria dos acidentes fatais (74%) envolveu ferimentos na cabeça.

Releiam estes quatro parágrafos e tirem as vossas conclusões.

O estudo pode ser lido aqui: http://www.industrializedcyclist.com/nycreport.pdf

Houve quem o lesse e conseguisse tirar a conclusão de que o uso do capacete não nos traz qualquer benefício. Tornem a reler os quatro parágrafos. Dúvidas?

Massa Crítica, acidentes e Comunicação Social

Há uma outra questão que nunca vi ninguém abordar e que tem a ver com a relação entre os acidentes e o impacto na Massa Crítica.

Os acidentes, sabemo-lo, são inevitáveis. Têm a ver com o comportamento humano.

Por mais ciclovias que haja e por mais bem feitas que sejam. Sempre que montamos uma bicicleta e nos misturamos com o trânsito, podemos ter atrás de nós um sujeito a guiar e a falar ao telemóvel… Ou uma senhora cheia de pressa que nos corta a trajectória, mesmo que vá ficar parada no semáforo seguinte.

Sabemos também que a comunicação social adora sangue. Fala-se pouco de bicicletas mas qualquer acidente de bicicleta no qual o ciclista morra tem fortes probabilidades de capa de jornal e de abertura do noticiário das oito.

Como exemplo, veja-se o caso das motos. Podem passar-se meses sem vermos qualquer imagem de um Grande Prémio de Motociclismo (mesmo com um Português a correr e com bons resultados, o que interessa é o futebol, da 1ª Divisão até à Distrital) mas, havendo um acidente do qual resulte a morte de um piloto, as imagens são transmitidas em todos os noticiários. E repetidas até no dia seguinte…

O estudo de New York mostra, claramente, que a maioria das mortes de ciclistas em acidentes de viação estão relacionadas com a não utilização do capacete.

Podemos, por hipótese, ignorar este facto e apostar no aumento do número total de ciclistas em Portugal, a “Massa Crítica”, considerando que é estatisticamente desprezível o número dos ciclistas que, em virtude da opção de andar sem capacete, vão morrer vítimas de acidentes.

Mas quando aparecer a imagem de um ciclista morto nas capas dos jornais e na TV, quantos miúdos serão proibidos pelas mãezinhas de ir para a escola de bicicleta “porque é muito perigoso”? Esses miúdos são a futura “Massa Crítica”…

Quando se fala na questão da importância da Massa Crítica, alguém consegue calcular o impacto de cada acidente mortal em termos de ciclistas que vão abandonar a bicicleta como meio de transporte?

Sabemos que o uso obrigatório foi implementado na Austrália. O que se terá passado que levou um conjunto de pessoas a tomarem essa decisão tão polémica?

A tal diminuição do número de ciclistas na Austrália; acham mesmo que foi por causa do capacete se ter tornado obrigatório? Ou terá sido porque quando implementaram o uso do capacete obrigatório, já era tarde…

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Quatro estórias

 

img_20170122_174511-2Aqui há uns tempos, entrei numa farmácia. Doíam-me as costas e precisava de um medicamento. Merdas da idade.

Olhei para a maquineta das senhas e, naturalmente, carreguei no botão “ATENDIMENTO GERAL”.

Logo a seguir, entra um casal jovem, aí nos trintas, acompanhados de um miúdo com oito ou nove anos. Aproximaram-se da máquina e, depois de uma breve hesitação, tiraram uma senha de “ATENDIMENTO PRIORITÁRIO”.

O marido saiu e, passados alguns segundos, a senha da rapariga foi chamada. A rapariga foi atendida, pediu um medicamento e, tal era a urgência… que aproveitou para ver um champô.

Há uns meses atrás, entrei no café bem cedo, para tomar uma bica. Sentada a uma mesa estava uma família ruidosa, a tomar o pequeno almoço. Duas mulheres e dois homens.

Os homens, depois de servidos à mesa, foram pedindo mais algumas coisas ao balcão e, no final, pediram a conta e “pago eu”, “não eu é que pago” e “foi isto, e mais isto”, com o empregado a enumerar calmamente tudo o que tinha sido servido, até que por fim lá pagaram e saíram.

Depois de terem saído, um dos empregados do balcão chama o que tinha começado a servir a mesa e pergunta-lhe: Olha lá, tu não levaste um saleiro para a mesa?… Então se queres o saleiro vai pedir à velha que to devolva!

Ficaram os dois a olhar enquanto a família se metia na Ford Transit. E lá se foi um saleiro…

Há uns tempos atrás, um amigo meu passeava pela Praia da Rocha. Aparece-lhe um tipo ao lado, a guiar um automóvel e cumprimenta-o, efusivamente: “Olá! Eh pá, há quanto tempo que não te via!…”.

A conversa foi seguindo com o tipo do automóvel sempre a fazer de conta que se conheciam, “talvez do trabalho?…” e por aí fora. Passado um bocado, o tipo diz que tem uns relógios para vender porque está a angariar dinheiro “para uma Acção de Solidariedade.”

O meu amigo, depois de ter na mão um par de relógios que o outro insistiu em lhe mostrar, identifica-se como Juiz, mostrando o seu cartão, e diz ao sujeito que não está a gostar daquela história da angariação de dinheiro para solidariedade e que quer que ele o acompanhe a uma esquadra. O sujeito atrapalha-se, balbucia umas desculpas e acaba por acelerar dali para fora deixando um par de relógios para trás…

Tenho um amigo que tem um cão. O cão, quando apanha a porta do quintal aberta, sai e vai dar uma voltinha pelo bairro. Volta sempre sozinho. Nunca se perdeu.

Aqui há uns tempos, saiu, e à hora de jantar ainda não tinha voltado. A filha do meu amigo ficou desesperada. Depois de procurar nas redondezas, fez uns papéis com uma foto do cão e um telefone para contacto e lá foi ela, de lágrima ao canto do olho, mais o pai, ver se alguém teria recolhido o bicho. Lembrou-se de acrescentar nos papéis que daria uma recompensa a quem encontrasse o animal.

No dia seguinte, aparecem-lhe à porta dois miúdos com a mãe, que trazia o cão ao colo. Foi logo perguntando, mas sem entregar logo o cão, quanto era a recompensa e acrescentou que tinha tido uma trabalheira com o cão “e uma grande despesa com a comida…”. A entrega do cão acabou por ser negociada e ficar em vinte ou trinta euros.

Estas quatro estórias têm uma coisa em comum. Todas são estórias com ciganos.

Xiii! Coitados dos ciganos! É claro que quatro estórias não fazem de todos os ciganos gente desonesta ou com a mania que são mais espertos que os outros…

Mas talvez ajude a perceber porque é que aparecem os tais sapos à porta das lojas, não?

E agora…

Diz o Sousa Tavares que a malta que anda a dizer mal do Soares é uma cambada de energúmenos e que devia era ler. É capaz de ter alguma razão mas o problema é que, mesmo lendo, como é que podemos saber o que é verdade e o que não é? A imprensa, vale o que vale, e a História, cada um escreve-a à sua maneira.

A estória da cuspidela na bandeira, o “atirem-nos aos tubarões”, os diamantes da Jamba, o fax de Macau, os dinheiros para a Fundação… cum camandro, afinal era tudo mentira?

Voltando às leituras. Segundo li, eram necessários catorze elementos da PSP em permanência para garantir a segurança de Soares. E agora que Soares morreu, o que é que esta rapaziada vai fazer???…

A propósito dos diamantes. Como uma imagem vale mais que mil palavras, deixo-vos esta do Joãozinho a dançar uma tarrachinha no tempo das vacas gordas na Jamba…tarrachinha.jpg

Foto fornecida por um elemento da “secreta” de Angola.

Acabou-se a fruta?

Exactamente há um ano atrás, escrevi aqui um post intitulado Fruta da época.

Quando escrevi esse texto, sobre umas ameixieiras que tinha descoberto, tomei por garantido que, sempre que voltasse o Verão, teria à minha disposição umas deliciosas ameixas.

Eram boas as ameixas. Diferentes de tudo o que se possa comprar. E eram de borla, o que também é bom. Além disso, só eu sabia da coisa. Quer dizer, as duas árvores estavam à vista, mas, aparentemente, só eu apanhava as ameixas.

Tinha tomado a coisa por garantida. Grande erro o meu. Nunca me tinha passado pela cabeça que as árvores poderiam não estar ali para sempre.

Mas aconteceu isso mesmo. Apesar do terreno em causa ser em plena Lisboa, em Julho deste ano, um incêndio, cuja causa desconheço, varreu todo o terreno, cerca de seis hectares, chegando até a ameaçar algumas habitações.P1020753-b.jpgQuando vi aquela terra queimada, fiquei bastante aborrecido, mas não mais do que isso. Dei por mim a pensar no que sentirá um agricultor que, de um momento para o outro, vê toda uma propriedade devastada. Mas é quase obsceno tentar imaginar isso.P1020756-b.jpgP1020758 (2)b.jpgFui ver como estavam as “minhas” árvores. As ameixas, que ainda estavam verdes nessa altura, ficaram assadas, mas infelizmente… incomestíveis! A “colheita deste ano” estava perdida…

Tinha, apesar de tudo, alguma esperança de que o mato tivesse ardido rapidamente e que as árvores sobrevivessem. Há alguns dias, no entanto, o terreno foi limpo e as árvores foram arrancadas, com grande pena minha. Acabou-se!

Mas… existe uma terceira árvore, que descobri depois das outras duas. O local, mais uma vez, é um segredo à vista de todos. Ainda vai voltar a haver ameixas no Verão!!!