Quatro estórias

 

img_20170122_174511-2Aqui há uns tempos, entrei numa farmácia. Doíam-me as costas e precisava de um medicamento. Merdas da idade.

Olhei para a maquineta das senhas e, naturalmente, carreguei no botão “ATENDIMENTO GERAL”.

Logo a seguir, entra um casal jovem, aí nos trintas, acompanhados de um miúdo com oito ou nove anos. Aproximaram-se da máquina e, depois de uma breve hesitação, tiraram uma senha de “ATENDIMENTO PRIORITÁRIO”.

O marido saiu e, passados alguns segundos, a senha da rapariga foi chamada. A rapariga foi atendida, pediu um medicamento e, tal era a urgência… que aproveitou para ver um champô.

Há uns meses atrás, entrei no café bem cedo, para tomar uma bica. Sentada a uma mesa estava uma família ruidosa, a tomar o pequeno almoço. Duas mulheres e dois homens.

Os homens, depois de servidos à mesa, foram pedindo mais algumas coisas ao balcão e, no final, pediram a conta e “pago eu”, “não eu é que pago” e “foi isto, e mais isto”, com o empregado a enumerar calmamente tudo o que tinha sido servido, até que por fim lá pagaram e saíram.

Depois de terem saído, um dos empregados do balcão chama o que tinha começado a servir a mesa e pergunta-lhe: Olha lá, tu não levaste um saleiro para a mesa?… Então se queres o saleiro vai pedir à velha que to devolva!

Ficaram os dois a olhar enquanto a família se metia na Ford Transit. E lá se foi um saleiro…

Há uns tempos atrás, um amigo meu passeava pela Praia da Rocha. Aparece-lhe um tipo ao lado, a guiar um automóvel e cumprimenta-o, efusivamente: “Olá! Eh pá, há quanto tempo que não te via!…”.

A conversa foi seguindo com o tipo do automóvel sempre a fazer de conta que se conheciam, “talvez do trabalho?…” e por aí fora. Passado um bocado, o tipo diz que tem uns relógios para vender porque está a angariar dinheiro “para uma Acção de Solidariedade.”

O meu amigo, depois de ter na mão um par de relógios que o outro insistiu em lhe mostrar, identifica-se como Juiz, mostrando o seu cartão, e diz ao sujeito que não está a gostar daquela história da angariação de dinheiro para solidariedade e que quer que ele o acompanhe a uma esquadra. O sujeito atrapalha-se, balbucia umas desculpas e acaba por acelerar dali para fora deixando um par de relógios para trás…

Tenho um amigo que tem um cão. O cão, quando apanha a porta do quintal aberta, sai e vai dar uma voltinha pelo bairro. Volta sempre sozinho. Nunca se perdeu.

Aqui há uns tempos, saiu, e à hora de jantar ainda não tinha voltado. A filha do meu amigo ficou desesperada. Depois de procurar nas redondezas, fez uns papéis com uma foto do cão e um telefone para contacto e lá foi ela, de lágrima ao canto do olho, mais o pai, ver se alguém teria recolhido o bicho. Lembrou-se de acrescentar nos papéis que daria uma recompensa a quem encontrasse o animal.

No dia seguinte, aparecem-lhe à porta dois miúdos com a mãe, que trazia o cão ao colo. Foi logo perguntando, mas sem entregar logo o cão, quanto era a recompensa e acrescentou que tinha tido uma trabalheira com o cão “e uma grande despesa com a comida…”. A entrega do cão acabou por ser negociada e ficar em vinte ou trinta euros.

Estas quatro estórias têm uma coisa em comum. Todas são estórias com ciganos.

Xiii! Coitados dos ciganos! É claro que quatro estórias não fazem de todos os ciganos gente desonesta ou com a mania que são mais espertos que os outros…

Mas talvez ajude a perceber porque é que aparecem os tais sapos à porta das lojas, não?

E agora…

Diz o Sousa Tavares que a malta que anda a dizer mal do Soares é uma cambada de energúmenos e que devia era ler. É capaz de ter alguma razão mas o problema é que, mesmo lendo, como é que podemos saber o que é verdade e o que não é? A imprensa, vale o que vale, e a História, cada um escreve-a à sua maneira.

A estória da cuspidela na bandeira, o “atirem-nos aos tubarões”, os diamantes da Jamba, o fax de Macau, os dinheiros para a Fundação… cum camandro, afinal era tudo mentira?

Voltando às leituras. Segundo li, eram necessários catorze elementos da PSP em permanência para garantir a segurança de Soares. E agora que Soares morreu, o que é que esta rapaziada vai fazer???…

A propósito dos diamantes. Como uma imagem vale mais que mil palavras, deixo-vos esta do Joãozinho a dançar uma tarrachinha no tempo das vacas gordas na Jamba…tarrachinha.jpg

Foto fornecida por um elemento da “secreta” de Angola.

Acabou-se a fruta?

Exactamente há um ano atrás, escrevi aqui um post intitulado Fruta da época.

Quando escrevi esse texto, sobre umas ameixieiras que tinha descoberto, tomei por garantido que, sempre que voltasse o Verão, teria à minha disposição umas deliciosas ameixas.

Eram boas as ameixas. Diferentes de tudo o que se possa comprar. E eram de borla, o que também é bom. Além disso, só eu sabia da coisa. Quer dizer, as duas árvores estavam à vista, mas, aparentemente, só eu apanhava as ameixas.

Tinha tomado a coisa por garantida. Grande erro o meu. Nunca me tinha passado pela cabeça que as árvores poderiam não estar ali para sempre.

Mas aconteceu isso mesmo. Apesar do terreno em causa ser em plena Lisboa, em Julho deste ano, um incêndio, cuja causa desconheço, varreu todo o terreno, cerca de seis hectares, chegando até a ameaçar algumas habitações.P1020753-b.jpgQuando vi aquela terra queimada, fiquei bastante aborrecido, mas não mais do que isso. Dei por mim a pensar no que sentirá um agricultor que, de um momento para o outro, vê toda uma propriedade devastada. Mas é quase obsceno tentar imaginar isso.P1020756-b.jpgP1020758 (2)b.jpgFui ver como estavam as “minhas” árvores. As ameixas, que ainda estavam verdes nessa altura, ficaram assadas, mas infelizmente… incomestíveis! A “colheita deste ano” estava perdida…

Tinha, apesar de tudo, alguma esperança de que o mato tivesse ardido rapidamente e que as árvores sobrevivessem. Há alguns dias, no entanto, o terreno foi limpo e as árvores foram arrancadas, com grande pena minha. Acabou-se!

Mas… existe uma terceira árvore, que descobri depois das outras duas. O local, mais uma vez, é um segredo à vista de todos. Ainda vai voltar a haver ameixas no Verão!!!

Estampilhas e afins

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A placa, numa parede no Largo do Calhariz, em Lisboa, anuncia: “Vendem-se estampilhas e mais formulas de franquia de correios e telegrafos”.

Ó pai, o que é que são estampilhas? E fórmulas de franquia? Correios eu sei o que é… mas o que é que são telégrafos???

Tanta coisa para explicar sobre este anúncio! Mas o pior nem é explicar. É eu saber o que são estas coisas porque ainda sou do tempo em que se usavam…

É PROHIBIDO…

É PROHIBIDO AFFIXAR ANNUNCIOS N’ESTA PROPRIEDADE

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Adoro estas placas! Por isso é que, quando vi uma na Feira da Ladra, aqui há uns tempos, não hesitei.

É pelo facto de o aviso ser escrito em português anterior ao acordo de 1911, é por ser em ferro…

Um pormenor que nunca consegui tirar a limpo foi o significado das letras APP que aparecem no canto inferior direito da placa. Será que já estavam a preparar uma App?!…